
Diferenças básicas entre alergia ao leite de vaca e intolerância à lactose
*Aires Dias Leão Júnior
Existe uma certa confusão no uso dos termos entre alergia alimentar e intolerância alimentar, e são termos usados para diferentes patologias. A alergia alimentar envolve manifestações alérgicas como uma resposta exagerada do sistema imunológico, podendo atingir principalmente o sistema digestivo, sistema respiratório e a derme. Na intolerância alimentar não há envolvimento do sistema imunológico, sendo definido como uma incapacidade de digestão de algum alimento, e geralmente associado à deficiência de alguma enzima.
As manifestações clínicas são distintas. Na alergia alimentar, um ou mais sintomas podem estar associados, podendo ocorrer imediatamente após a exposição ao antígeno ou após algumas horas ou mesmo dias, sendo os principais sintomas: diarréia, intestino preso, refluxo gastresofágico, vômitos, cólicas, colite com sangramento digestivo, dor abdominal, anemia injustificada, manifestções dérmicas - como urticária e dermatites -, manifestações respiratórias - como asma, bronquite e rinite. Na intolerância alimentar, os sintomas acontecem mais precocemente ocorrendo algumas horas após a exposição, e ocorrem no aparelho digestivo, sendo os principais: flatulência, distensão abdominal, dor abdominal, assaduras, náuseas, halitose e diarréia.
Um bom exemplo para demonstrar esta situação cabe numa pergunta: ALERGIA AO LEITE DE VACA, ALERGIA À LACTOSE E INTOLERÂNCIA À LACTOSE SÃO A MESMA COISA? A alergia às proteínas do leite de vaca (principalmente caseína e lacto-albuminas) ocorre como uma reação alérgica e se manifesta como tal, agindo em diferentes órgãos e com diferentes sintomas, dependendo da susceptibilidade individual. A intolerância à lactose ocorre quando ocorre uma incapacidade de digestão da lactose, e deve-se ao fato da enzima lactase estar ausente ou diminuÃda. Neste caso o açucar (lactose) não é digerido e consequentemente não absorvido, permanecendo no lúmen intestinal. No intestino grosso sofre ação fermentativa das bactérias, que provoca produção de gases e diminuição do pH e com isto os principais sintomas: assaduras, flatulência, distensão abdominal, diarréia e desconforto. Não há participação do sistema imunológico e não provoca alergia .
A alergia alimentar é mais comum em bebês e crianças mais novas. Quanto mais precoce a introdução de proteínas heterólogas, maior a chance de desenvolver alergia alimentar. A amamentação com leite materno protege a crianças quanto à alergia alimentar. Após o terceiro ano de vida é mais rara a persistência da alergia ao leite de vaca. A intolerância à lactose é mais comum após o segundo ano de vida, quando os níveis de lactase começam a diminuir devido a idade de desmame.
Alguns pacientes com suspeita de alergia à proteína alimentar necessitarão ainda de outro teste que é o ¨teste de desencadeamento¨ , que consiste na observação da reação do paciente à retirada do leite de vaca e derivados com melhora do quadro clinico. Necessário se faz uma posterior re-in-trodução desses alimentos para reavaliação.
Após o diagnóstico específico, o tratamento da alergia ao leite de vaca é realizado com a suspensão do leite de vaca e derivados por um período que varia de 6 meses a 2 anos. O uso de outros leites animais (cabra, ovelha, búfala, etc...) possuem um risco estimado de aproximadamente 80% de apresentar alergia cruzada. O uso de soja possui este risco de aproximadamente 50% de alergia cruzada. O uso de hidrolisados de proteínas (caseína ou de soja) são os indicados no tratamento. Alguns pacientes refratários deverão fazer uso de aminoácidos puros. Na intolerância a lactose, pequenas quantidades de leite são toleradas. O uso de leites especiais com lactose reduzida trazem grandes benefícios. Uma importante colaboração nos dias atuais é que a lactase pode ser manipulada.
Dr. Aires Dias Leão Júnior – Gastropediatria CRM 5501
(*) Graduado em Medicina pela Universidade Federal de Goiás; Possui Pós-Graduação em Pediatria pela UFG, com aperfeiçoamento em Gastroenterologia Pediátrica pela UFMG e UFG, ambos certificados pelo MEC.